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O diagnóstico de câncer versus a importância do tratamento interdisciplinar

O câncer é na atualidade uma das doenças crônicas que mais atinge a população em todo o mundo e, por sua vez, produz diversos significados de sofrimento, dor e morte por ser ainda, apesar da evolução científica, um desconhecido. Esta enfermidade, além dos sintomas somáticos, causa muitos abalos emocionais envolvendo sofrimentos psíquicos, tanto para o doente como para seus familiares devido à insegurança que provoca frente ao risco de morte exigindo grandes mudanças comportamentais e adequação frente aos longos períodos de tratamento.

 Quando a pessoa que adoece é uma criança todas estas reações emocionais podem ser mais intensas para o pequeno paciente, assim como para seus pais e irmãos. A partir desse cenário deve ser enfatizado um novo olhar no cuidado dos pacientes da oncologia pediátrica e suas famílias, considerando os aspectos biopsicossociais da doença. Desta forma, faz-se necessário olhar para outras questões que podem emergir para além do corpo, isso quer dizer que, durante o tratamento de um câncer, a criança e também sua família, necessitam não apenas de cuidados físicos, mas também de apoio emocional e psicológico, bem como, orientações explícitas quanto à doença.

 Os cuidadores/pais e crianças com câncer vivenciam um longo processo desde os sinais, sintomas e diagnósticos até o final do tratamento. Apresentam sentimentos que misturam surpresa, impotência e tristeza que vão influenciar as formas de agir e de pensar enquanto re-significam a doença.

Todo fenômeno assume um caráter único e pessoal, variando entre os diferentes indivíduos, famílias, grupos culturais e classes sociais. Neste prisma, também o câncer infantil possui sentidos diferenciados para cada família. Significações que são influenciadas pelo contexto sociocultural, pelas representações sociais e pelas produções simbólicas de cada pessoa.

A equipe de saúde que atende à criança funciona como anteparo para todas as necessidades e ansiedades do paciente e da sua família, é importante ter conhecimento e uma estrutura adequada para atender bem esses indivíduos que buscam nele, além da cura, amparo e carinho neste momento difícil.

A infância é um período crucial na vida de qualquer sujeito. É na infância, a partir das vivências das relações familiares e sociais como um todo, que o indivíduo constrói sua relação com o próprio corpo, com o mundo externo, e a partir daí adquire uma estrutura de personalidade que vai ser a base para todas as suas experiências futuras.

A doença é um evento inesperado e indesejável e dependendo do tipo de câncer e a precocidade do diagnóstico pode causar sequelas tanto físicas como psíquicas deixando profundas marcas. Além disso, cada criança e cada família irão reagir de formas diferentes, pois a rotina será completamente alterada e todos os hábitos comuns próprios da infância tornam-se algo distante para ela devido às limitações que a doença e o tratamento impõem.

A descoberta do câncer traz o medo da dor, do sofrimento, da mutilação e a insegurança em relação ao futuro devido ao risco de morte. A criança e seus familiares têm todos estes medos compartilhados e suas vidas e rotinas transformadas com a descoberta da doença, porém tudo dependerá, entre outros fatores, não só do estágio em que a doença se encontra como da personalidade de cada um dos sujeitos envolvidos, mas em todos os casos, recursos internos sempre serão utilizados para o melhor enfrentamento de uma situação tão difícil que é ter um câncer ou ter um filho com este diagnóstico.

Muitas vezes nesta situação de estarem de frente com a doença, os pais e até outros familiares podem buscar desesperadamente, tratamentos complementares ou voltar-se para a espiritualidade, buscando conforto em suas crenças. A importância da crença e da fé faz com que toda a família se envolva em uma só causa, a cura de um membro doente e a união da família faz com que todos se ajudem. Ao apoiar-se numa crença, num ser superior, há a possibilidade de tranquilizar o seu ser diante de suas fragilidades pela proteção Divina, pela promessa, talvez, de uma vida melhor.

Diante desta realidade faz-se necessária a dimensão espiritual, na qual os familiares buscam o consolo, a esperança, a cura, a vida, para assim, fundamentar, planejar,  aprofundar e “amadurecer” reflexões e condutas condizentes com a realidade de seres que sofrem e que buscam por conforto não apenas físico, mas por conforto  na sua totalidade existencial.

São muitas as dificuldades e sofrimentos manifestados pelos familiares, relacionados com a vivência de todo esse processo. Entretanto, os familiares e as crianças continuam lutando, acreditando na vida e fazendo deste processo importante fonte de crescimento. Compete então, aos profissionais multidisciplinares envolvidos nos tratamentos oncológicos, muita sensibilidade e percepção nesta jornada junto aos pacientes, principalmente quando se trata de crianças, acreditando que os problemas podem ser superados e que a luta pela vida sempre vale a pena.

Esta reflexão possibilita a inferência de que as formas de desorganização, organização, estruturação e enfrentamento da doença pela família orientam-se a partir do sentido que esta dá à doença. O que traz a perspectiva de que quanto mais forte for à associação do sentido da doença com uma representação simbólica de característica e natureza negativa e estigmatizada, maior poderá vir a ser o impacto e a dificuldade de reestruturação na dinâmica familiar.

Ressalta-se a relevância de uma atuação interdisciplinar em que a equipe de saúde envolvida no tratamento da criança doente se mobilize para oferecer apoio individual a cada membro do sistema familiar, para que tenham condições de superar as tensões envolvidas no enfrentamento do câncer infantil.

 

 

 

Grasiela Lopes CRP – 07/19379

Psicóloga Aapecan Santa Cruz do Sul

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