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Dia 4 de fevereiro – Dia mundial do Câncer

    O Dia Mundial do Câncer é uma oportunidade de dizer que muito pode ser feito quando pessoas, comunidades e governos se mobilizam em torno de soluções para o problema. A data cria oportunidade para disseminar informação e estimular o debate através dos meios de comunicação de todo o mundo. Para elucidar o tema o Oncologista Dr. Stephen Stefani foi convidado a escrever o artigo a seguir para nosso Jornal Acreditar.

“As partes do elefante”

    Durante o ano todo em datas alusivas e principalmente quando chega o último trimestre do ano, fica mais evidente que os meses têm cores. O outubro é rosa para alertar sobre o câncer de mama, novembro é azul reportando ao câncer de próstata e até dezembro, menos conhecido, é laranja para campanha do câncer de pele.  Tem todo sentido fazer campanhas para essas doenças que, juntas, podem vitimar milhares de pessoas todo ano. Os números, inclusive, vêm crescendo e o câncer deve ultrapassar as doenças cardiovasculares como principal causa de morte no planeta em pouco mais de uma década.

   O que tem um objetivo sensato, entretanto, tem gerado confusão para leitores que acompanham eventuais debates sobre a validade ou não dessas iniciativas. Questões sobre a idade correta ou intervalo para mamografia de rotina tem dividido especialistas em todo planeta. Da mesma forma, Porto Alegre acompanhou a polêmica após declaração do Secretário da Saúde que sugeriu que a triagem do câncer de próstata seria indicada somente para grupos de maior risco, o que foi contestado pela Sociedade de Urologia.

Como o leitor pode então decidir?  Tem alguém correto e outro errado neste debate? Mulheres devem fazer mamografia com qual idade e intervalo se cada um diz uma coisa? E exame para detecção de câncer de próstata?

   Para dar uma resposta prática, recordo de uma tradicional fábula do folclore hindu. Um príncipe indiano teria reunido um grupo de cegos e, ao mesmo tempo, um elefante. Em seguida conduzindo os cegos pela mão até o elefante para que o apalpassem. Um apalpou a barriga, outro a cauda, outro a orelha, outro a tromba, outro uma das pernas. O príncipe solicitou que cada um explicasse aos outros como era o elefante. O que tinha apalpado a barriga, disse que o animal era como uma enorme panela. O que tinha apalpado a cauda até os pelos da extremidade discordou e disse que o elefante se parecia mais com uma vassoura. O que tinha apalpado a orelha sugeriu ser um leque aberto, quem apalpou a tromba entendeu que se tratava de uma mangueira e, finalmente, quem apalpou a perna alegou se tratar de um tronco. Evidentemente cada um se apoiava na sua própria experiência e não conseguia entender como os demais podiam afirmar o que afirmavam o que levou a uma interminável discussão. O príncipe percebeu que eram incapazes de aceitar que os outros podiam ter tido outras experiências. “O elefante é tudo isso que vocês falaram”, explicou. Não devem negar o que os outros perceberam. Deveriam juntar as experiências de todos e tentar imaginar como a parte que cada um apalpou se une com as outras para formar esse todo que é o elefante, concluía a fábula.

     Não estou chamando os envolvidos nos debates em cegos, evidentemente. São especialistas em suas áreas e, assim como pessoas cegas, tem vários talentos de elevada complexidade. O que não resta dúvida, entretanto, é que as recomendações são diferentes por que cada um adota sua perspectiva. No caso da mamografia, toda literatura reforça que existe benefício de identificação precoce do câncer de mama (idealmente antes de causar sintomas). O que está em discussão é sobre qual a melhor política de saúde na qual a relação de custo-efetividade (quanto se gasta para obter um desfecho favorável) é mais adequada. Em pacientes de maior risco (faixa etária entre 45 e 60 anos) é mais fácil identificar essa vantagem. Em outras faixas etárias não está errado fazer investigação, mas como política de saúde pública, há questionamento legítimo sobre o excesso de investimento para retorno questionável quando se poderiam salvar mais vidas com outras estratégias. É uma discussão recheada de questões éticas! Sobre câncer de próstata, quando a Sociedade de urologia informa que a chance de cura é maior quando a doença é identificada precocemente, está correta. O que gera a celeuma não são esses casos, mas aqueles que tiveram exames alterados e acabaram demandando investigação que não revelou doença. Há quem diga que, do ponto de vista de saúde pública, esses casos anulam a vantagem de quem se beneficia. Novamente, não se trata de uma decisão individual, mas de política de decisão populacional.

    Todos esses meses e suas cores devem se concentrar em definir como debater o tema com seu médico, identificar quem eventualmente pode e deve se beneficiar de investigação e fomentar soluções mais sustentáveis.

    Evidente que cabe lembrar que existem várias variáveis não mensuráveis, por exemplo, o sofrimento subjetivo da experiência prévia de um familiar com câncer. Navegamos em um oceano de milhares desfechos e decisões. Cabe ao profissional de saúde – principalmente neste tempo em que a relação médico paciente passou a ser mais horizontal em detrimento ao modelo vertical prévio de “médico manda paciente obedece” – ajudar o paciente e família a tomar a decisão mais acertada. As decisões passam pela visão critica da ciência e comunicação clara e disponível – obrigação do profissional da saúde.

 Stephen Stefani é oncologista clínico do Instituto do Câncer Mãe de Deus. Membro ativo de várias sociedades internacionais, como American Society of Clinica Oncology (ASCO), European Society of Medical Oncology (ESMO) e Internacional Society of Pharmacoeconomics and Outcome Research (ISPOR). É autor de diversos artigos, capítulos e livros. Já palestrou em vários países, incluindo a Escola de Saúde Pública de Harvard em Boston, nos Estados Unidos.

foto Dr. Stephen (Copy)

Dr. Stephen Stefani – Oncologista Clínico do Instituto do Câncer Mãe de Deus

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